quinta-feira, 7 de agosto de 2008

"Para que tu me ouças..."

Enquanto arrumava umas coisas encontrei um poema perdido escrito por Pablo Neruda.
Sempre gostei muito dele, do poema...e também do escritor.

"Para que tu me ouças...
Para que tu me ouças
as minhas palavras
adelgam-se às vezes
como o rasto das gaivotas sobre as praias.
Colar, guizo ébrio
para tuas mãos suaves como as uvas.
E vejo-as tão longe, as minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando pela minha dor como a hera.
Elas trepam assim pelas paredes húmidas.
Tu é que és a culpada deste jogo sangrento.
Elas vão a fugir do meu escuro refúgio.
Tu enches tudo, amada, enches tudo.
Antes de ti povoaram a solidão que ocupas
e estão habituadas mais que tu à minha tristeza.
Agora quero que digam o que quero dizer-te
para que tu ouças como eu quero que me ouças.
O vento da angústia ainda costuma arrastá-las.
Furacões de sonhos ainda por vezes as derrubam.
Tu escutas ainda por vezes a minha voz dorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me companheira. não me abandones.Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.
Mas vão-se tingindo com o teu amor as minhas palavras.
Ocupas tudo, amada, ocupas tudo.
Vou fazendo de todas um colar infinito
para as tuas mãos, suaves como uvas."

3 comentários:

Rocket disse...

o que melhor ouço é através dos olhos...
adoro silêncios.

gozo o amor dos poetas... fazem, ou fizeram bem.

o meu só o gozo quando o dou... não quero nada de ninguém, nem que me ouçam sequer.

beijos

Zabour disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Zabour disse...

Rocket:
E às vezes, mais importante que tudo, é saber ouvir o som do silêncio...

Beijinhos